O Grupo 2 Cantos, composto pelos alunos Alexandro Garcia da Silva e José Aparecido da Silva, do curso de Licenciatura em Teatro da UAB/UNB, dividiu as tarefas para realização deste trabalho.
A dupla mora em cidades diferentes, ficando o roteiro a cargo do Alexandro e a captação de imagens e edição sob responsabilidade do José Aparecido. A revisão final foi feita em conjunto.
Agradecemos aos atores Serginho e Karen que mui gentilmente se dispuseram a nos ajudar nessa atividade sem ao menos terem qualquer experiência em interpretação cênica.
A linha narrativa da história baseou-se na pesquisa sobre fotonovelas, priorizando uma temática que beira o dramalhão (um elemento usado com sucesso nesse tipo de trabalho), e um componente crítico que visa explorar as agruras pelas quais passa um aluno de EAD de uma instituição séria como a Universidade de Brasília.
É incontestável a capacidade da televisão como veículo agregador e difusor de informações e conhecimentos, porém esta mesma capacidade, a princípio positiva, torna-se negativa quando as informações e os conhecimentos tomam rumos meramente comerciais, de controle e influência social.
O longametragem “O Show de Truman – O Show da Vida”, dirigido por Peter Weir, conta a história de um vendedor de seguros que desde o seu nascimento tem sua vida transmitida 24 horas por dia num reality show televisivo. Sem saber, tudo que o cerca é uma criação de estúdio cinematográfico, assim a cidade onde mora é cenário e as pessoas com quem convive são atores e figurantes.
Estas informações já são suficientes para a constatação de que uns dos questionamentos propostos pelo filme se referem aos aspectos éticos da comunicação e a superioridade da indústria cultural e da sociedade do consumo sobre a individualidade e a liberdade humana.
Porém a reflexão sobre a complexidade do filme ultrapassa a barreira das relações e comportamentos humanos alcançando o valor do sagrado quando o poder de controle e influência da televisão compara-se apenas ao poder divido da onipresença, onipotência e onisciência.
A vida torna-se inferiorizada como material para estudo e reflexões de desenvolvimento humano e configura-se como objeto mercadológico superior que pode ser manipulado, direcionado e explorado conforme as necessidades econômicas capitalistas.
Nisso, como cúmplices da prisão do protagonista, os telespectadores são induzidos a apreciar e participar do espetáculo da mídia, que lucra não apenas com a consagração do seu poder, mas também com o marketing vinculado à encenação e com a carência emocional e sentimental da audiência.
No final, como o prisioneiro do Mito da Caverna de Platão que na busca pela verdade descobre que tudo o que imaginava como verdadeiro não passava de ilusão, reflexos e sombras Truman procura por respostas e defrontando-se com a maior resposta da sua vida: continuar uma estrela num mundo fictício ou sair e levar uma vida comum, ambas ilusórias, optou pela segunda, e após curvar-se e reverenciar o público renega ao mundo do espetáculo publicitário e parte em busca da sua identidade.
A novela “Ti-Ti-Ti”, remake de um grande sucesso global dos anos 80, atualmente escrita por Maria Adelaide Amaral e dirigida por Jorge Fernando trouxe novamente ao horário das sete um programa leve e de uma comicidade cativante para os aficionados em novelas.
Não fosse o seu aspecto comercial, característica primeira de toda produção novelística, verificado pelos altos índices de audiências, sobretudo das donas de casa e dos outros telespectadores que procuram um programa light para um começo de noite tranqüilo e pelos comerciais de produtos destinados à classe pobre e média baixa, tais como cremes revolucionários, lojas de móveis e eletrodomésticos parcelados em prazos a perder de vista até automóveis populares, a novela configuraria uma visível fonte para complexas discussões sobre o comportamento do homem e mulher pós-modernos.
Conceitos de comportamento que na maioria das vezes passam despercebidos pela audiência hipnotizada pelo riso fácil e pelas situações hilárias proporcionadas pelo enredo da novela.
Nas palavras de Pedrinho Guareschi, citadas no artigo “Aspectos contemporâneos da Educação: televisão, uma interação possível” [1], a vasta quantidade de informação da “era da informação” recebida pelas crianças (e pelos indivíduos em geral) não é filtrada, processada e tão pouco usada devido à falta de associação dessas informações com o processo de ensino e aprendizagem.
No tempo das informações fáceis e rápidas percebidas nas diversas ferramentas modernas de comunicação virtuais e de entretenimentos, como que numa cegueira e surdez intelectuais não enxergamos informações situadas entre os nossos sentidos e a tela da TV, e a Educação peca em não usá-las como material de fomentação de discussões em sala de aula.
No caso da atual novela das sete são vários os conceitos passíveis de estudos didático-pedagógicos: modismo, consumismo, capitalismo, homoerotismo, ética nas relações humanas, tecnologias contemporâneas, tempo, arte, metalinguagem, ficção e realidade e o próprio conceito novela como transmissora, construtora e influenciadora de comportamentos.
É evidente que o discurso defendido pela produção da novela está inserido no discurso comercial e comunicativo da emissora que a produz e a divulga, cabendo a nós telespectadores, de forma crítica e distanciada, identificar as mensagens vinculadas no programa, acatando-as ou negando-as conscientemente.
[1] NUNES, Roseli Pereira; OLIVEIRA, Cláudia Santos de; FELIZOLA, Matheus Pereira Matos; SOARES, Maria José Nascimento. Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, SE. Revista Iniciacom, Volume 2, nº 1 (2010).
Todas as sextas-feiras o telespectador, que por um motivo ou outro, resolveu ficar em casa pode encontrar um programa divertido na Rede Globo: Separação?! Protagonizado pelos atores Debora Bloch (Karin) e Vladimir Brichta (Agnaldo) e escrito por Alexandre Machado e Fernanda Young, com direção de José Alvarenga, o seriado é transmitido após o Globo Repórter, por volta das 23 horas.
É um programa de poucos personagens e de recursos cênicos realistas. O enredo gira em torno de situações, às vezes bizarras, das dificuldades da relação entre marido e mulher, prestes à separação.
Os próprios pontos de interrogação e de exclamação presentes no nome do seriado denunciam as inconstâncias nos comportamentos dos dois principais personagens. Ao mesmo tempo em que mostram sentimentos de rejeição um ao outro, protagonizam cenas de ciúmes e cometem ações, digamos pouco convencionais, para chamar a atenção ou para demonstrar o amor pelo outro.
O cenário é composto principalmente pelo espaço escolar – onde Karin exerce a função de professora; pelo escritório, no qual Agnaldo trabalha como executivo, e pela casa onde moram.
Em torno do casal encontramos personagens que fogem dos padrões conservadores moralistas, e nessa situação se enquadram até mesmos os protagonistas: uma professora neurótica e estressada, uma diretora de escola alcoólatra e comilona, uma chefa que se apaixona pelo subordinado, um executivo incompetente e atrapalhado, e amigos estranhos.
Ao apresentar esses personagens que não se enquadram no comportamento desejado das relações humanas os autores nos oferecem uma visão caótica da sociedade moderna de forma humorística, irônica e repleta de humor negro.
Entre erros e gafes, as situações engraçadas entre os personagens criam atmosferas críticas do comportamento humano e lançam como pano de fundo da relação complicada entre um casal, questões possíveis de reflexão sobre o corporativismo empresarial, sobre as transformações nos laços familiares não nucleares, sobre o novo papel feminino na sociedade e sobre os problemas emocionais causados pelo ritmo frenético do mundo contemporâneo.
O programa não se encaixa na categoria do humor fácil e de efeitos cômicos imediatos, ao contrário, exige do telespectador certo conhecimento crítico, possibilitando, além do riso, reflexões sobre o comportamento, nisso impõe para reflexão situações cotidianas que muitas vezes passam despercebidas como fonte de discussão.
Assim, se um dos objetivos do programa for proporcionar um “humor inteligente” ao mesmo tempo em que informa através de situações banais do cotidiano, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que ele cumpre com os seus propósitos.
Nas últimas décadas vem se intensificando a abordagem dos meios multimídias como fonte de conhecimento no ambiente escolar formal para o processo de ensino e aprendizagem.
A corrente que defende o uso das novas tecnologias na educação embute no seu discurso que juntamente com a inserção das mídias em sala de aula é necessário desenvolver o senso crítico dos aprendizes tanto para análise como para apreciação dos conteúdos veiculados a elas, e que o processo da mídia-educação só se completa quando a mídia deixa de ser mero mecanismo de apoio para tornar-se o próprio objeto de estudo.
Inserido neste pensamento crítico-reflexivo sobre a mídia e sobre o seu poder de alcance o filme “O Quarto Poder”, do diretor Costa Gravas, em consonância com o documentário “Muito Além do Cidadão Kane”, do diretor Simon Hartog, se constituem fontes de conteúdo complexo e abrangente sobre a influência sócio-política da televisão, como veículo formador de opinião e de enquadramento de informações e notícias por via única e condizentes com os interesses da empresa televisiva.
O longa-metragem protagonizado por Dustin Hoffman (Max Brackett) e por John Travolta (Sam Baily) tem como enredo e foco de estudo o ramo jornalístico sensacionalista, que sobre qualquer pretexto ultrapassa os limites éticos da área da comunicação com o intuito de elevar os índices de audiência. Nisso, o ser humano torna-se inferior à notícia, e tudo que seduza os telespectadores é usado como informação, segundo o enquadramento e desejos dos jornalistas. E como podemos averiguar no filme, o incorreto enquadramento dado ao fato inicial que desenvolve toda a trama culminou em tragédia com a morte do personagem que durante o filme foi se deixando envolver e se influenciar pela visão de um repórter que almejava à fama.
Embasado num pensamento mais político e social da notícia o documentário produzido pela BBC (British Broadcasting Corporation) de Londres, estreado em 1993, e, a partir de então, proibido judicialmente de ser transmitido em solos brasileiros conduz com grande poder de persuasão e convencimento uma intensa denúncia sobre o poder da Rede Globo de Televisão nos meios políticos, sociais e culturais do Brasil.
Segundo o documentário, a Globo, conduzida por Roberto Marinho, manipulou debates políticos, interferindo nas eleições de 1989; apoiou a ditadura militar e as censuras artísticas; criou ídolos de qualidades artísticas questionáveis, dentre tantas outras influências.
Desta forma, tendo essas duas obras como referência, não é difícil concluir que a televisão exerce em significativo poder social e tem potencialidade infinita como veiculadora de informações e de saber, o que a qualifica como uma importante ferramenta de ensino.
No entanto, como a televisão, embora seja concessão pública e que por lei constitucional devesse dar preferência na sua grade a programas com fins educacionais e sociais, na prática isso não se confirma, visto os interesses comerciais e econômicos das emissoras, muitas vezes contraditórios aos preceitos da imparcialidade e da ética, conceitos estes fundamentais para a produção e para a divulgação da informação conduzida de forma séria e transparente.
Optei por fazer “colagens” de imagens em cima da ideia de falsa felicidade proporcionada por alguns programas televisivos, geralmente os programas de domingo à tarde.
Muitos desses programas são extremamente sensacionalistas e assistencialistas, com o discurso de fazer ações que deveriam ser feitas pela esfera governamental eles exploram as dificuldades econômicas e a carência educacional, causando geralmente, como num roteiro trágico, a identificação e compaixão da audiência pelas situações financeiras e emocionais dos entrevistados e participantes das reportagens.
São pessoas que não veem seus familiares há anos, são pessoas que moram em casas prestes a desmoronar, são pessoas que perderam entes próximos ou que sofreram graves acidentes.
Interferindo diretamente sobre estes acontecimentos, os programas conseguem nos fazer esquecer que a finalidade primeira das reportagens não é diretamente ajudar as pessoas necessitadas, mas usar o poder de sedução dos fatos trágicos para prender o espectador frente à televisão. Nisso choramos, nos angustiamos e algumas vezes nos sentimos cúmplices pela situação daquelas pessoas.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Tantas marias em tantos brasis.
José Aparecido da Silva
“A tradição de todas as gerações mortas
oprime como um pesadelo a mente dos vivos”
Karl Marx
Resumo: partindo da análise do curta-metragem “Vida Maria”, de Márcio Ramos, o presente artigo propõe uma reflexão crítica sobre as condições de vida dos brasileiros analfabetos que vivem em regiões economicamente desfavorecidas, nas quais as tentativas de transformações promovidas pelo ensino são frustradas pelo conservadorismo e pelo determinismo social de certas culturas e pela ineficiência dos órgãos governamentais em aplicar efetivas políticas educacionais de combate ao analfabetismo.
Abstract: starting from the analysis of the short film “Vida Maria”, by Márcio Ramos, this article proposes a critical reflection on the living conditions of illiterate Brazilians who live in economically disadvantaged regions, in which attempts of transformation promoted by teaching are frustrated by conservatism and social determinism of certain cultures and by the inefficiency of government agencies in implementing effective educational policies to combat illiteracy.
Key words: short film, social problems, education.
Não é de hoje que escutamos a expressão de coexistência de diversos brasis no nosso vasto território, repleto de diversidades culturais. Um deles, por sinal, de proporções enormes, é precário, injusto, pobre, determinista e representa uma parcela da população que sofre com a falta de informação e vive alheia aos acontecimentos modernos, vivendo à margem do progresso e excluídos dos anseios da democracia, da liberdade e da igualdade.
É uma parte do país que parou no tempo, e mesmo sendo participante da contemporaneidade, ainda reage ao mundo de forma pacata e passiva, difundindo de geração a geração costumes e ideias não mais condizentes com a realidade atual da totalidade humana.
O tempo hoje é outro, e não é medido por acontecimentos naturais do dia e da noite. O tempo atual, paradoxalmente, é atemporal, não cíclico e híbrido. Não atua em direção única, mas abrange toda a extensão existencial do indivíduo inserido num ciberespaço cada vez mais influenciador e dotado de potencialidades libertadoras nunca antes visto na história da humanidade.
Creio não ser culpa das pessoas a exclusão desse mundo de possibilidades da era do conhecimento. Não escolhemos aonde nascer ou a qual cultura pertencer, porém nascemos, no caso do Brasil, num país, teoricamente, democrático e adepto do Estado de Direito e da Declaração Universal dos Direitos Humanos que difunde nos artigos iniciais que todas as pessoas têm direito à liberdade, à igualdade, e principalmente, à vida, sendo este o maior de todos os direitos.
Mas como se beneficiar de tantos direitos se o mínimo é negado e várias pessoas são, como num estado determinista, condicionadas a sobreviver sem ajuda externa de um governo incapaz de promover a cidadania nos lugares mais necessitados?
Assim, lançadas à sorte, vão levando suas vidas num ambiente fechado e arcaico, sem relação com o mundo externo que as cercam, num sofrimento incalculável e não sentido por elas mesmas, já que não possuem um referencial de felicidade.
Nisso o curta-metragem Vida Maria, de Márcio Ramos, nos coloca frente a frente com esses problemas, e racionalmente vamos tentando achar soluções para eles ao mesmo tempo em que nos emocionamos com as histórias idênticas e fictícias, porém simbólicas da realidade, de tantas marias.
As mãos pequeninas da Maria-Criança-Sonhadora que “desenham” o nome, transformam-se nas mãos grandes e limitadores da Maria-Adulta-Amargurada, que não mais escrevem e que servem, tão somente, para o trabalho pesado da subsistência. É uma tristeza cíclica e conservadora respaldada pela limitação do conhecimento, pela transferência de costumes, pela passividade em aceitar a vida como ela está e pela ausência da interferência governamental.
A vida educacional dessas marias coube em apenas uma página e, mesmo assim, limitadas à escrita dos seus próprios nomes e a sonhos nunca concretizados.
Referências.
ANDRADE, Maria Margarida de. Guia de redação em língua portuguesa. 2ª ed. São Paulo: Jubela Livros Ltda., 2007.
CIAMPA, Antonio da Costa. A estória do Severino e a história da Severina. São Paulo: Brasiliense, 2007.
FERRAZ, Janaína de Aquino; RIBEIRO, Ormezinda Maria. Oficina de produção de textos: competências linguísticas e midiáticas. Brasília: UnB.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.
LIMA, Antônio Oliveira. Manual de redação oficial: teoria, modelos e exercícios. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. 374p.
MORAES, M. C. O paradigma educacional emergente. Campinas: Papirus, 2003.
RAMOS, Márcio/Joelma; Vida Maria [vídeo/curta-metragem]. Produção de Márcio Ramos e Joelma Ramos; Direção de Arte de Márcio Ramos. Brasil, 2006. Colorido, animação, 9 min., som.
Para saber mais sobre o curta-metragem "Vida Maria" clique aqui.
antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor
Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, dois grandes compositores brasileiros, nos convidam a procurar o homem em meio a tanta tecnologia. A tecnologia e o ciberespaço só fazem sentido se andarem de mãos juntas com o homem: o lado humano da técnica e o lado técnico do humano. Os aspectos emocionais, na música simbolizados pelos batimentos do coração, podem ser amplificados pela tecnologia, se considerarmos que uns dos objetivos do ciberespaço é diminuir as distâncias, aproximar as pessoas e fomentar a coletividade.
O capítulo “As tecnologias têm um impacto” do livro Cibercultura de Pierre Lévy desvenda alguns conceitos que cerca a relação técnica/cultura e sociedade. O autor inicia o texto esclarecendo que a idéia de que a tecnologia é um elemento à parte (autônomo) da sociedade é errada; segundo ele “as técnicas são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas durante seu uso pelos homens, como também é o próprio uso intensivo de ferramentas que constitui a humanidade enquanto tal (junto com a linguagem e as instituições sociais complexas)”, portanto, defende a impossibilidade da separação entre o ser humano (social e cultural) do ambiente material (tecnológico). Lévy escreve ainda que a grande ênfase dada aos impactos das tecnologias no meio social deveria ser dada também à questão de que elas são produtos do próprio homem, e que a distinção entre os elementos cultura, sociedade e técnica não possui respaldo em um ator separado e distinto, sendo para o autor meramente conceitual, e impulsionados por tendências intelectuais ou por forças que nos querem fazer pensar que certos problemas podem ser refletivos considerando apenas um destes elementos, desconsiderando as verdadeiras relações entre eles. Continua dizendo que os produtos da técnica são bastante variados, sendo assim não podem ser analisados de forma geral sem considerar as especificadas das épocas e situações na qual participa, e que por traz do desenvolvimento da cibertecnologia estão Estados, grandes corporações e blocos geopolíticos com interesses militares, de domínio e de expansão mercadológica. Em relação ao assunto da tecnologia ser determinante ou condicionante de uma sociedade, o autor escreve que as técnicas condicionam os meios culturais e sociais, no entanto, as aplicações positivas ou negativas das técnicas dependem de “um conjunto infinitamente complexo e parcialmente indeterminado de processos em interação que se auto-sustentam ou se inibem”, sendo ainda impensáveis algumas possibilidades humanas na ausência da tecnologia. Outro ponto importante colocado do texto refere-se à inteligência coletiva, tida por Lévy como “um dos principais motores da cibercultura”, representando um veneno para aqueles que não participam dela e um remédio para aqueles que conseguem entrar nela e controlar o fluxo de informações e conhecimentos que ela proporciona. Sintetizando, pode-se dizer que os impactos sociais e culturais advindos da tecnologia dependem mais das aplicações que o homem pode fazer dela do que da sua existência propriamente dita, e que as implicações que causam na sociedade não pode ser pensadas isoladamente sem a relação com os outros fatores sócio-culturais.
Quadro negro. Giz. Pilhas de livros. Professores como o absoluto e digno de todo respeito.
O cenário educacional muda relativamente ao processo de mudança da sociedade. Desde a descoberta da escrita até a atualidade, foram várias as mutações sofridas no processo do aprender, essa mudança se faz ainda mais acentuada quando lançamos nossa ótica para o processo educacional escolar. Se não mais existe na memória das novas gerações, num passado não muito distante, nas rodas de família, nas prosas familiares, sempre se ouvia num tom nostálgico nossos avós e em alguns casos até os nossos pais, ao citarem suas memórias educativas, relatarem seus processos educacionais. Lembra o caderno dos nossos avós, feito numa moldura de quadro, onde dentro se encontrava uma pedra e ela era o seu único caderno? Uma pedra é o termo simbólico aqui usado para expressar o ritmo no movimento das informações desencadeado pelas novas tecnologias especialmente a internet; desde a invenção de Guttenberg até nossa era onde reinam os cientistas da comunicação ligados as grandes multinacionais produzindo de maneira coletiva, de fato se comparada à era da Microsoft a era de Guttenberb poderia ser chamada de idade da pedra, a humanidade se depara com uma nova descoberta do fogo, uma nova dimensão é descoberta pelos navegadores deste info-mar, navegadores de nossas Arcas-de-Noé individuais com janelas que se abrem para o coletivo, neste novo dilúvio.
Na metáfora de Pierre Lévy somos agora argonautas do ciberespaço e o novo dilúvio é informacional. Neste contexto, é importante que os professores tenham conhecimento de como utilizar as TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) de forma crítica e criativa, construindo espaços de aprendizagens contextualizadas. Não basta a escola ter laboratórios de informática, é fundamental que esses laboratórios tenham uma proposta pedagógica inserida no Projeto Político-Pedagógico, discutida e construída pelo coletivo. Nessa proposta devem-se levar em consideração as especificidades da comunidade escolar, das disciplinas envolvidas e dos objetivos que se pretendem alcançar.
Desse modo, teremos uma educação de boa qualidade, atualizada e incentivadora, a tal ponto, que os alunos de escola pública estarão tão bem preparados quanto os de escola particular, não só para o mercado de trabalho, mas principalmente, para as surpresas que a vida oferece. Estamos caminhando juntos para uma educação de qualidade, com pais, alunos professores, coordenadores e diretores se conscientizando que o ensino de qualidade nada mais é que um ensino coletivo.
Assim, dentro da proposta da Inteligência Coletiva de Pierre Lévy, a construção do conhecimento dentro do espaço escolar de forma coordenada e dirigida é extremamente válida, possível e enriquecedora: dentro do espaço escolar podem-se propor temas para discussão desde as séries iniciais com o intuito do desenvolvimento da capacidade reflexiva e crítica do alunado. Atualmente, com a facilidade de fazer parte do ciberespaço, diversas crianças, antes mesmo de aprenderem a falar corretamente, já sabem usar o controle remoto da televisão. Os laboratórios de informática e de ciências complementam os livros e a sala de aula. Através de login e senha, os alunos já podem navegar pela rede mundial de computadores e fazerem suas pesquisas e tarefas em casa, via internet. Outro ponto positivo é o desenvolvimento das ferramentas educacionais: em algumas escolas já existem a lousa eletrônica em substituição ao quadro-negro, e universidades oferecem cursos de ensino à distância em diversas áreas de conhecimento.
No entanto, com tantos recursos tecnológicos se desenvolvendo junto com a educação e o mercado de trabalho, cada vez mais exigente no tocante à experiência com a manipulação da informática, torna-se imprescindível a capacitação dos professores para tirarem o máximo proveito da interação entre alunos e recursos tecnológicos para pedagogicamente inserir a educação digital.
E nesta perspectiva de trabalhar o ciberespaço no ambiente escolar, o professor de artes pode usar como estratégias a curiosidade, a imaginação, a fantasia e o prazer de fazer. É inevitável a presença da tecnologia dentro das salas de aula - data-shows, filmes, músicas e a própria internet invadiram as escolas -, sendo saudável a utilização dos blogs, as rádios escolares, a TV digital, os recursos da internet; sem esquecermos a fiscalização e o cuidado com o cyberbulling (conjunto de comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos que são adotados por um ou mais alunos contra outros colegas via blogs, Orkut, YouTube, entre outros tipos de sites) e o uso do celular em sala de aula.
Exemplificando práticas: quando crianças, na fase pré-escolar de 3 a 6 anos, convivem em um ambiente lúdico e confortável em que a música, o vídeo, os instrumentos musicais e outros apetrechos tecnológicos podem ser utilizados de forma a trazer-lhes possibilidades de ver, ouvir, movimentar, cantar e até mesmo interagir com as demais crianças. Ainda, através da utilização da ferramenta paint do Windows o professor pode sugerir ao aluno que desenhe uma história ou uma cena (com personagens, cenários, objetos) e depois apresentá-lo via data-show, e em seguida transformar coletivamente os trabalhos dos alunos numa apresentação teatral. Contudo, além da utilização do desenvolvimento tecnológico como um recurso material, há também a facilidade dessa tecnologia no sentido de contextualização, pesquisa, conhecimento e apreciação de diversos processos e obras artísticas.
Enfim, nessa rede tecnológica vamos criando e nos criando, identificando e transformando. Inteligência coletiva, blogue-se, link-se. O homem criou a máquina, essa deve servi-lo, e não o contrário. Contribuição para pesquisa, construção do conhecimento, em suma, educação. Lembrando, entretanto, que a sensibilidade é essencial ao desenvolvimento humano e o pensamento crítico é o que move o mundo, e que, na esfera educacional, não basta oferecer tecnologias, é preciso a preparação dos alunos para uma educação que ensine a pensar, pois as tecnologias não produzem nada sozinhas; nós somos o seu grande patrocinador, provedor e usuário, e dependerá de nossas escolhas uma utilização adequada ou não delas.
(Texto coletivo criado pelos alunos do Curso Licenciatura em Teatro da Universidade Aberta do Brasil/Universidade de Brasília/2º semestre de 2009: Rejane Araujo de Oliveira, Alessandro Garcia da Silva, Robson Vieira dos Anjos, Mariana Duarte Amorim, Rodrigo Marcio Ramos Jube, Angela Rojo, Antonio Carlos de Rezende, Cristiane do Nascimento Ladislau, Marly Borgatto de Ccasa, Juliana Mafra, Luis Henrique Martins Cleto e José Aparecido da Silva).